Gravitação

Exposição fotográfica.

Técnica/Dimensões: duas séries de 6 e 13 imagens feitas em filme fotográfico 35mm, ampliadas em papel fotográfico aplicado sobre MDF em formato 26cm x 35cm. Ano de realização: 2006 – 2007.

Em Leituras de portfólio em rodas de fotógrafos era comum a pergunta: “mas qual a sua questão?” À qual, supostamente o trabalho apresentado deveria responder inteiramente. Percebi, no entanto, que pouco me interessavam os trabalhos bem sucedidos em responder às suas questões fundantes. Muito mais me valeram os trabalhos que as respondiam apenas parcialmente, ou ainda, que não as respondiam em absoluto e as deixavam inteiramente abertas ao espectador.

Este foi meu primeiro trabalho autoral. Até então tinha a fotografia como um fim em si (produzir “boas fotos”, em seus âmbitos técnicos e compositivos, com ínfimas ambições humorísticas, documentais, ou narrativas). Mas como se faz um trabalho de autor? Na época aluna do NEF, procurava meios de “resolver questões” com a fotografia . “Qual a sua questão?” Era uma pergunta recorrente. Eu não tinha uma questão, apenas um incômodo generalizado. Trouxe para a aula um cartão postal de um quadro de Edward Hopper: imagem de uma moça sozinha em um café. A cadeira vazia diante dela denunciava um lugar a ser ocupado. Por que estava sozinha? Esperava por alguém ou acabara de expulsá-lo? Concentrei-me no desejo de preencher aquela cadeira, e ao mesmo tempo de desocupá-la, para então refazer o movimento.

Como fotografar ao mesmo tempo o desejo de atração e expulsão? A força que partia do desejo de preencher o vazio deveria também obrigatoriamente existir em sentido contrário: o desejo de tornar a esvaziar. Chamei esse equilíbrio entre forças de gravitação: “atração mútua que existe entre corpos e que varia com as massas dos objetos e com a distância que os separa.” Porque se Newton estava certo, supondo que estivesse, ainda que num plano de condições favoráveis, o desejo é uma força de atração diretamente proporcional à distância entre desejante e desejado (quanto maior a distância, maior o desejo). Mas o desejo é também irreconciliável, pois, à medida que se aproxima do objeto desejado, a força de atração estranhamente se converte em força de expulsão que, no instante em que os dois corpos se chocam, passa a separá-los.

Como fotografar essa força? Meu primeiro teste foi com objetos, fotografei coisas que aludiam de alguma forma a continentes e conteúdos (líquidos e copos, côncavos e convexos, para citar exemplos). Nessa primeira série, nenhuma das fotos evidenciava a tensão que eu buscava, resultando apenas em uma pilha de fotos de coisas dentro ou ao lado de outras coisas. Não me interessavam propriamente os objetos, mas como se relacionavam, era o campo de forças entre eles que eu procurava ampliar.

Passei então a fotografar pessoas com algum objeto. Não havia um script, apenas pedia que me deixassem fotografá-las com suas coisas pessoais: alguém segurando sua bolsa, ou fumando um cigarro, ou ainda simplesmente respirando. Pensava que poderia de alguma forma detectar na escolha das pessoas por aqueles objetos algum vestígio do desejo que as moveu a possuí-los. As fotos dessa segunda série ficaram mais próximas do que eu buscava, mas traziam elementos demais: roupas e lugares, principalmente, interferiam no espaço da relação. Eu precisava de uma distância ideal entre os dois pólos (como o copo que se eleva à boca, em dado ponto, também pode ser o copo que se devolve à mesa), mas os resultados que obtive traziam uma forte intenção de executar o movimento em apenas uma direção, e não atendiam à minha proposta.

Parti para a fotografia encenada. Desenhava as cenas, mas sem a intenção de criar uma narrativa (nada se pressupunha como anterior ou posterior à imagem. Procurava torná- las imagens circulares, desprovidas de tempo linear). Aliás, aquelas imagens tinham mais de música do que de cinema: eram como acordes em que várias notas deveriam ser tocadas ao mesmo tempo.

Tinha os esboços, precisava executá-los. Sabia que queria fotografar mulheres e não homens (após algumas tentativas mal sucedidas com homens na série com objetos). Como critério de escolha, elegi as mulheres que fotografaria não pelo desejo de possuí- las, mas sobretudo pelo desejo de me torná-las (era a minha falta que elas carregavam). Estaria aí o movimento.

O primeiro ensaio encenado foi num quarto de hotel, no centro velho da cidade. Tinha imaginado criar uma atmosfera de estranhamento e imaginei que um hotel ajudaria a neutralizar uma potencial familiaridade com o espaço. Também levei minhas próprias roupas para que vestissem “a minha pele”. O resultado foi melhor do que o anterior mas o quarto de hotel converteu-se em uma interferência, havia um excesso de elementos (objetos, roupas, arquitetura).

Pensei que fotografá-las nuas poderia ser uma solução, mas não queria que o estar nu se tornasse a questão principal (que fizessem poses, ficassem desconfortáveis, “vestidas de nu”). Eu precisava que se despissem, mas era preciso também despir o espaço, ou a arquitetura as “vestiria”.

Convidei-as à minha casa. Na época, um apartamento vazio e recém alugado, arquitetura antiga, anos 1960, talvez. A luz era difusa, havia muitas janelas e as paredes na cor bege tinham uma certa qualidade de pele. O piso era de taco bem brilhante e aproveitei essa qualidade para explorar os reflexos invertidos dos seus corpos e objetos deitando-me inteiramente no chão para fotografá-las.

Pedi para que tirassem suas roupas apenas até o ponto em que continuassem confortáveis. A medida que as fotografava sentia que estava fazendo as imagens que buscava (com a fotografia analógica, essa confirmação viria sempre depois). Trabalhava o tempo a meu favor: já com meu corpo deitado no chão, posicionava a cena e rastejava lentamente em direção à imagem, que se construía centímetro a centímetro. Buscava deixá-las se perderem de mim, seus corpos estavam ali, mas o olhar delas era distante, comportavam-se aparentemente despreocupadas em relação ao meu olhar, como eu as percebia, ou como seriam retratadas. Eram corpos em relação a outros corpos, onde o copo não é mais frágil que a mão que o segura. As cenas não resultaram exatamente como as que tinha desenhado, havia, claro, uma distância entre a imagem e o imaginado, mas eram muito próximas.

Essa experiência resultou em uma série de seis fotografias que foram expostas pela primeira vez na Galeria Estreita (Curitiba, 2007). Em 2008, fiz uma reedição do material, com treze fotografias que expus em um bar noturno, chamado Wonka, também em Curitiba. O número maior de fotografias nessa segunda edição se justificava pelas condições do novo espaço, muito maior, o que permitia uma separação física entre uma e outra imagem, e assim também, uma certa redundância ou aliteração visual. As novas imagens funcionavam como pontes naquele espaço mais rarefeito. Algumas das fotografias originais também foram substituídas, o que tornava essa série inteiramente nova.

O ambiente do bar se aderiu às fotografias que passaram a pertencer àquelas paredes. A luz pontuada e quente aquecia a pele das personagens que pareciam estar vivas, compartilhando o mesmo ar e as conversas das pessoas. Mais do que experimentar como aquelas fotografias se comportariam fora de um espaço de galeria, essa segunda exposição me permitiu entender como imagens e espectadores se relacionariam num lugar repleto de desejo humano, de pessoas “gravitando” umas sobre as outras. De certa forma, eu voltava ao café de Edward Hopper.

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