O que testemunha um corpo?

Palestra para o Café com Psicanálise, organizado pelo projeto sobre arte e psicanálise Tempo de Morangos coordenado por Josiane Orvatich em junho de 2018.

https://www.facebook.com/tempo.de.morangos/videos/644966925854153/

O que testemunha um corpo?

É preciso dizer, antes de tudo, que falarei enquanto muitos corpos, e que todos eles me constituem. 

Em ordem de aparição eu primeiramente sou, como somos todos, um corpo que nasce a partir de outro corpo. E quando falamos de testemunho, falamos desse corpo que deriva e à deriva, que ainda não pode falar de si, como objeto de si. Desse princípio: a da gestação ao nascimento, dos primeiros dias e talvez anos, que constituem  uma experiência para sempre perdida na narrativa. O pensador alemão Peter Sloterdijk, em Vir ao mundo, Vir à linguagem, fala de uma biografia irremediavelmente incompleta, na qual não podemos jamais escrever as primeiras páginas, que permanecem em branco, pois tratam da experiência inominável, que precede a aquisição da linguagem e, portanto, do sentido.

A nossa história só começaria a ser contada então a partir do momento em que podemos dizer EU. Quando EU me torno o MEU corpo, separado do corpo materno e consciente de si. O problema é que essa mesma separação extrapola os limites de “si” em direção a um corpo como “objeto de si”. Do corpo EU passamos a dizer do corpo MEU, como algo externo e alheio à nós mesmos. Passamos a uma existência paralela que se dá enquanto IMAGEM, que construímos, alimentamos, vestimos, pacificamos e educamos para que agrade e se integre à sociedade. Essa imagem também pode se chamar cultura. E assim nos dividimos em gêneros, classes e ordens. 

Mas e a desordem, onde habita? 

Suspeito que ela só possa se manifestar em duas instâncias: na loucura e na arte. Da loucura pouco sei, mas posso esboçar algumas manifestações do corpo na arte.

Qual a diferença entre o ser-corpo do artista e o simplesmente ser?

Vejo o corpo do artista como um corpo que se pensa, auto reflexivo. Por outro lado esse pensamento segue caminhos selvagens, pois não atravessa necessariamente um saber constituído, mas tateia um não saber, de um corpo que desconhece a si próprio e que estranhamente oferecemos ao espectador, que também não se sabe. Quando o artista coloca seu corpo à nossa disposição, sobretudo na performance, ele não está oferecendo um conhecimento polido e bem acabado, mas sim o seu próprio desconhecimento frente à uma experiência que é proposta.  

Quando Marina Abramovic e Ulay se colocam nus no vão de entrada de um museu, e o espectador tem que decidir a qual dos dois corpos dará às costas, ou a face, para atravessar aquela estreita passagem, esse enfrentamento é um total desconhecido, tanto para os artistas quanto para os que os atravessam. A mesma artista, aos 23 anos, dispõe em 1974, 76 objetos variados em uma mesa: um copo de água, um sapato, uma rosa, mas também uma faca, uma lâmina de barbear, uma arma carregada com uma bala. Há instruções que dizem: “eu sou um objeto. Você pode usar todas essas coisas sobre a mesa em mim. Eu assumo toda a responsabilidade, inclusive se você me matar. A duração é de seis horas.” 

No começo tudo segue com relativa facilidade, as primeiras pessoas a interagir dão-lhe água para beber, entregam-lhe a rosa. Mas depois de pouco tempo um homem pega uma tesoura e corta suas roupas. E então alguém pega os espinhos daquela rosa e os espeta em seu ventre. Um outro homem pega a lâmina de barbear e corta o seu pescoço, bebe seu sangue. As mulheres dizem para os homens o que fazer. Os homens não a estupram, afinal, trata-se de uma abertura de exposição em uma galeria pública. Mas carregam seu corpo de um lado para o outro, colocam uma faca no meio de suas pernas. Até que alguém pega a arma carregada e a empunha contra sua cabeça. Outra pessoa segura a arma e começam a lutar. Depois de seis horas, Marina caminha em direção ao público, seminua, coberta de sangue e lágrimas. Todos fogem, não podem suportar confrontá-la com ela mesma, em si, vestida de seu corpo, como um ser humano comum. 

O que testemunha um corpo, senão sua própria mortalidade, sua perecibilidade?

O que testemunha um corpo, senão sua corporeidade?

Talvez a pergunta seja o que se nega ao corpo, do corpo. Seus estados animais, um corpo que não pode ser visto apenas como um corpo nu, na natureza. 

Um corpo só, que não pode ser só um corpo.

Mesmo um índio nu, nunca está nu. Veste-se de uma postura, ainda que se ornamente de uma única pena de pássaro, ou de um pouco de tinta de urucum, esse pequeno ornamento altera seu estado natural. 

Um artista que me traz em parte esse conflito é Rodrigo Braga. Em seus trabalhos a nudez é quase sempre um despir-se de toda a cultura, em direção à uma animalidade, a uma comunhão com a mortalidade do corpo perecível. Um confronto com um estado mais que primitivo, essencial, da condição humana. Suas obras no entanto são criticadas, censuradas. 

Pergunto-me: o que há de censurável neste corpo nu? Encontro que o problema não está na exibição da nudez do corpo, mas na apresentação da sua fragilidade diante da da natureza e do que nos consome: a morte. Na performance “Comunhão” (2006), Rodrigo convive, abraça, se deita e se enterra nu, com um bode morto.  Um corpo que testemunha a mortalidade, o quente dos corpos e o frio da terra molhada, um estado perecível, dele e do bode, esse que parece estranhamente vivo. 

Mas não queremos saber desse corpo, proibimos imagens de serem mortais. Tal qual na maldição de Dorian Gray, vivemos presos em nosso retrato invertido, imortal. 

Mas também podemos dizer que Rodrigo Braga é um artista e, por lidar com representações, que suas imagens não testemunham nada de “real”, que são uma “Mentira repetida” — que coincidentemente dá nome a outra obra do artista.  E se não é real, o que vemos nas suas fotografias que nos causam prazer, dor, medo e êxtase?  Como é possível, ao mesmo tempo, viver a experiência e compor a cena, fotografar, operar a câmera, o controle remoto (controle?). Rodrigo é aranha e mosca na mesma teia. 

Podemos então duvidar da verdade na representação, dizer que o testemunho na arte é falso.  Arrisco afirmar o contrário: se a arte pode dizer a verdade, é justamente por se assumir como representação. Ao se dispor entrar em conflito com uma experiência, o artista busca construir uma espécie de reconstituição, ou inversão, do inominável para o campo do sensível, daquilo que até então habitava além do nosso espectro visível e palpável. Ao emprestar seu corpo à imagem, o artista cria um oco, ou uma ponte, para que nós também a habitemos, numa operação de substituição do corpo do artista pelo corpo do espectador. Suspeito que resida aí uma parte do incômodo que certas imagens nos causam. Para que essa operação seja possível, processos criativos como o de Rodrigo Braga implicam em um mergulho profundo em seus próprios abismos. Não como tentativa de sublimação das pulsões, no sentido psicanalítico tradicional, em direção a algo “socialmente aceitável”, muito pelo contrário: tratam-se de experiências que nos trazem um testemunho selvagem que revela aquilo que invariavelmente também somos, e de que perecemos: matéria, corpo, carne, fluídos, desamparados em uma natureza hostil. 

E sobre o que somos, volto ao ventre materno. Aos corpos que derivam de corpos. 

Falo agora a partir do meu corpo de artista, no qual começo a tecer uma obra que alicia outros corpos, de outras mulheres que me oferecem o testemunho de suas experiências. Alfaiataria para corpos latentes, claro parte de mim, mas aqui partir têm muitos sentidos: partida, partir-se, e também partitura. “Parto” da minha história como mulher e mãe: do nascimento do meu segundo filho, no meio do doutorado; de uma gravidez não planejada, mas presente. Como sobreviver à essa imposição? Como compartilhar e multiplicar minha experiência de morte subjetiva através da gravidez, parto, puerpério e amamentação, em direção ao OUTRO? A resposta só encontro na própria pergunta: a partir do outro. Ponho-me a coletar roupas usadas por mulheres nesses períodos, e peço que me contem suas histórias. É esse o tecido verdadeiro que constitui a obra, é esse fio condutor que alinhava nossos corpos em um. Os testemunhos que acompanham as peças de roupa apontam uma certa urgência de ressubjetivação narcísica em corpos praticamente aniquilados pela experiência da maternidade: quem é essa mulher desconhecida que renasce das cinzas? Como se conjugam mulher, mãe e indivíduo? 

As roupas serão costuradas por outra artista, que não é mãe, mas que perdeu a sua ainda criança, e poderão, como parangolés, ser vestidas pelo espectador. As histórias contadas serão descritas em uma série de fotografias onde eu visto cada uma das peças, como num catálogo de moda industrial, que investiga esse corpo estranho a si mesmo, e que tentamos vestir. Uma construção coletiva, onde cada troca entre autor, artista, espectador, cria uma nova lacuna a ser preenchida pelo próximo que o atravessar. 

Mas retomemos a pergunta: o que testemunha um corpo? Pouco importa, se não há registro desse testemunho. Nós humanos, os únicos seres verdadeiramente mortais, que se movem em uma linha reta imaginária onde tudo à nossa volta o faz de modo cíclico, como colocou Hannah Arendt em “A condição humana”. É porque o corpo se perde, porque ao corpo só é possível se perder, que o testemunho nos salva do desamparo. A nossa humanidade se afirma na tentativa de criar algo que dê sentido a essa linha “reta”, que simbolicamente nos esforçamos em esboçar com nossa singela aparição.

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