Da resistência dos estados provisórios

(#resistenciadosestadosprovisorios)

Certo dia no ônibus, durante o longo e já costumeiro trajeto à minha casa, percebi que, na paisagem da janela, meu olhar procurava e se fixava sobre determinadas “gambiarras”: um caminho improvisado e marcado na terra onde não há calçada; uma pilha de pedras e tijolos encaixados segurando o relógio de luz no lugar do pedaço de muro que não foi reconstruído. Também comecei a observar a permanência de certas marcas e objetos que foram esquecidos ou abandonados: uma ponte enferrujada de uma obra que nunca foi concluída; impressões de dedos e mãos em uma porta empoeirada; cadeiras empilhadas há anos em um canto no corredor. Como essas imagens são sempre inesperadas, já que quase sempre as encontro em situações onde não tenho comigo uma câmera profissional, ou em lugares para os quais não tenho a possibilidade ou desejo de retornar, posso afirmar que sem a tecnologia móvel seria muito mais demorado e enfadonho fotografar essa série. Por vezes já cogitei fazê-lo — refotografar os mesmo lugares com mais definição — mas uma vez a imagem tendo sido compartilhada, é como se o seu estado provisório também se consolidasse e não fizesse sentido refazê-la.  Porque estes estados são presentes, dependem do encontro e compartilhamento imediato. É como se as imagens também dissessem “aqui estou, neste momento fluido, diante disso que você aí do outro lado também está, e assim somos também provisórios”.

O digital não tem primeiras e nem últimas poses e talvez, por isso, tenhamos perdido  — ou dispensado — justamente ela: a pose. Fotografamos sem muita cerimônia ou preocupação com a permanência da imagem. Seguimos no fluxo, disparamos contra coisas desimportantes que ganham e perdem seu significado na relação com os nossos espectadores/seguidores. Cartier-Bresson dizia que seu objetivo era fazer alguém parar por trinta segundos diante de uma de suas imagens; no fluxo digital, trinta segundos devem equivaler a trinta anos. Disputamos uma fração muito menor do olhar, alguém que apenas pare, nem que seja por meio segundo, diante de nós e, com o seu dedo indicador, declare o seu amor. Ainda que nesse fluxo permaneçamos na ordem do “to like” e não do “to love”.

Leia aqui a matéria que saiu no Plural, publicando o ensaio:

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