Materia na Revista Ideias sobre a exposição Mulheres Inventadas

Olhar para o espelho e não se reconhecer na imagem refletida. Aquele indivíduo que existia até então deixa, ao menos temporariamente, de existir. Essas transformações foram sentidas na pele de Nicole Lima quando estava grávida. Por quase dois anos após o nascimento do bebê, o cansaço e as mudanças no corpo tornaram-se uma realidade. “Muitas vezes é passada uma visão romantizada da maternidade, mas não é bem assim”, ressalta. Depois do nascimento da criança, nasce uma nova mulher. “É um processo de ruptura. Não sou a única mulher que viveu isso”, afirma.
Foi exatamente a partir desse olhar e também mediante conversas com outras mães que Nicole teceu a ideia de montar a obra “Alfaiataria para Corpos Latentes”. “É preciso falar desses corpos, dessas realidades”, salienta a artista. A exposição de Nicole faz parte da programação cultural “Mulheres Inventadas”, que está em cartaz no Museu Municipal de Arte (MuMA) – Portão Cultural desde 16 de março e seguirá até o dia 12 de maio. A entrada é gratuita. É uma oportunidade de conhecer o trabalho e a visão das mulheres sobre como elas enfrentam atualmente os diversos desafios do mundo contemporâneo.
Usando roupas utilizadas por mulheres nos períodos de gestação e amamentação, Nicole elaborou uma obra de arte costurando essas peças com fios vermelhos – que remetem ao sangue e ao cordão umbilical – como se fosse o fio condutor que une essas nem tão diferentes histórias de vida.
“Não é o papel da mulher como vítima, mas sim mostrar que as mulheres são protagonistas na sociedade e não são objetos ou apenas corpos ambulantes. É entender como é ser mulher e entender mais o que é ser feminino”, explica Nicole, que é a organizadora da programação.
Nicole e outras cinco outras artistas – Agnes Vilseki, Evary Leal, Karla Keiko, Laiz Zotovici e Verônica Fukuda – levam ao público questões particulares que cada uma viveu em suas trajetórias, cada uma com uma linguagem específica. Algumas questões, porém, são coletivas, como o abuso, a vergonha, o medo e as expectativas opressivas. É da vivência biográfica de cada uma delas que foram extraídos os temas para as obras de arte que compõem a exposição.
Durante dois anos, as seis artistas se reuniram periodicamente e à medida que os encontros aconteciam perceberam a necessidade de levar ao público a voz ativa da mulher e suas diferentes realidades. Em cada roda de conversa, elas perceberam que questões e dificuldades em comum se tocavam entre elas. O que é um corpo ideal? Quais expectativas são frustradas e quais as realidades vividas? Como conciliar subjetividade com feminilidade e maternidade? Essas foram algumas das questões que foram surgindo e estimulando o trabalho artístico dessas mulheres.
Segundo elas, mesmo que o debate sobre o feminismo e o que é ser feminino na contemporaneidade tenha sido ampliado ao longo deste século, não há uma resposta única. Soma-se o fato de que cada mulher tem seus conflitos internos. Partilhar esses dramas pessoais que se repetem em diferentes mulheres e expor esses conflitos são os principais motes de “Mulheres Inventadas”. A exposição coletiva também conta com um ciclo de debates e palestras gratuitas e abertas ao público que são realizadas todos os sábados, às 15 horas.
Além da obra de Nicole sobre maternidade, a exposição traz a história de Karla Keiko, de 30 anos. Através da obra “Meu Corpo Estranho”, ela relata a busca por um corpo perfeito que trouxe profundos arrependimentos e resultou em três cirurgias. Ainda jovem, colocou próteses de silicone nos seios. Uma escolha impulsiva que resultou em cicatrizes para a vida toda.
A obra de Laís, por exemplo, é intitulada “Ela em Mim” e tem como pano de fundo a relação entre mãe e filha, suas expectativas, o amor e o conflito. Relata a ruptura do processo de se separar da mãe para construir sua própria vida e fazer suas próprias escolhas.
Já Agnes Vilseki, em “Espelho Partido”, traz inquietações pessoais enquanto uma mulher lésbica no mundo atual. “Ela fala sobre as expectativas de se tonar uma ‘mulher’ e do que isso implicou em sua vida”, comenta Nicole.
Essas são algumas das histórias que “Mulheres Inventadas” traz em seu repertório. “Trata-se, sobretudo, do protagonismo da mulher. Colocamos, por meio do trabalho artístico, a mulher como um indivíduo social que sobrevive nessa construção social patriarcal”, ressalta Nicole.

Link para a matéria aqui: https://www.revistaideias.com.br/2019/04/17/mulheres-inventadas-o-protagonismo-feminino/

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